Infecção na Prótese de Quadril e Joelho: Sinais, Prevenção e Tratamento

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

A infecção é uma das complicações mais temidas da prótese — incomum, mas séria. O que é, como se previne, como se faz o diagnóstico, como se trata e o que esperar da recuperação, em linguagem clara.

Este artigo é informativo. Se você suspeitar de infecção, procure a sua equipe sem demora — só ela pode examinar, investigar e conduzir o seu caso. Este texto ajuda a reconhecer sinais e a entender a prevenção, não substitui a avaliação.

Entre as complicações de uma prótese, a infecção é uma das mais temidas — e faz sentido que assuste, porque é séria. Mas duas verdades andam juntas: a infecção da prótese é incomum, e muito se faz, dos dois lados (equipe e paciente), para preveni-la. E, quando surge, reconhecer os sinais cedo faz toda a diferença.

Este guia explica, sem alarmismo, o que a equipe faz para prevenir, o que você pode fazer, e quando procurar ajuda depressa.

Ilustração anatômica da prótese total de quadril instalada: a cúpula ocupa o encaixe na bacia e a haste metálica desce dentro do fêmur
A prótese total de quadril no lugar: a cúpula substitui o encaixe na bacia e a haste é fixada dentro do fêmur. Ilustração: Servier Medical Art (CC BY-SA 3.0), recortada

1. O que é uma infecção de prótese

Ao colocar uma prótese de quadril ou joelho, o metal e o plástico substituem a articulação gasta. Numa minoria dos casos, uma bactéria consegue se alojar na superfície da prótese e formar ali uma camada protetora chamada biofilme, que a defende dos antibióticos e das defesas do próprio corpo.

É por isso que essa infecção é diferente de uma infecção comum: muitas vezes não basta o antibiótico — costuma ser necessária uma cirurgia para limpar ou trocar a prótese. A revisão de Nelson e colaboradores (2023), na Clinical Infectious Diseases, descreve a infecção periprotética como um desafio clínico sério, com foco no diagnóstico, no manejo e na prevenção por uma equipe interdisciplinar [1].

Ela pode surgir logo após a cirurgia (dor que não passa, ferida que não fecha, secreção, vermelhidão, febre) ou anos depois (dor nova numa prótese que estava boa). A bactéria pode vir da própria cirurgia ou chegar pelo sangue, a partir de outro foco no corpo. Ao primeiro sinal, procure o seu cirurgião: quanto mais cedo, melhores as chances.

2. O que a equipe faz para prevenir

A prevenção da infecção é levada muito a sério e começa antes mesmo da cirurgia. É um trabalho interdisciplinar, reconhecido pela literatura como um dos grandes focos do cuidado moderno em artroplastia [1]. Entre as medidas habituais estão o preparo da pele, o uso de antibiótico no momento certo, técnicas rigorosas de esterilidade no centro cirúrgico e cuidados no pós-operatório.

Uma parte importante da prevenção acontece no preparo do paciente: otimizar os fatores de saúde antes de operar reduz o risco de forma concreta — um estudo mostrou que essa otimização, em conjunto, se associou a menos infecção do sítio cirúrgico [2]. Ou seja, chegar à cirurgia com o diabetes controlado, sem fumar e com a saúde otimizada é parte ativa da prevenção.

3. O que VOCÊ pode fazer para reduzir o risco

Você tem um papel real na prevenção, antes e após a cirurgia:

  • Antes da cirurgia: parar de fumar, controlar o diabetes, cuidar da nutrição e tratar focos de infecção (inclusive na boca) — veja os guias de como se preparar para a prótese de joelho e de quadril.
  • Depois da cirurgia: seguir os cuidados com a ferida exatamente como orientado, manter a região limpa e seca, e não mexer nem aplicar nada por conta própria.
  • Ao longo da vida: tratar prontamente outras infecções do corpo (urinárias, de pele, dentárias) — converse com a equipe sobre cuidados em procedimentos futuros.

4. Os sinais que merecem procurar ajuda depressa

Reconhecer cedo é decisivo. Procure a sua equipe sem demora se notar:

  • Febre sem outra explicação clara.
  • Vermelhidão, calor ou inchaço crescentes na região operada.
  • Dor que aumenta em vez de melhorar, especialmente depois de já estar melhorando.
  • Secreção ou drenagem pela ferida, ou uma ferida que não cicatriza como esperado.

Nenhum desses sinais confirma sozinho uma infecção — vários têm outras causas —, mas todos merecem avaliação rápida. Na dúvida, ligar é sempre certo: quanto mais cedo avaliada, mais simples costuma ser a conduta.

Quando procurar ajuda depressa

  • Febre sem outra explicação clara.
  • Vermelhidão, calor ou inchaço crescentes na região operada.
  • Dor que aumenta em vez de melhorar, especialmente depois de já estar melhorando.
  • Secreção ou drenagem pela ferida, ou uma ferida que não cicatriza como esperado.

Nenhum desses sinais confirma sozinho uma infecção, mas todos merecem avaliação rápida; na dúvida, ligar é sempre certo.

Prof. Dr. Daniel Fernandes · drfernandes.com.br

A lista de sinais torna imediata a decisão de procurar a equipe sem demora.

5. Como se faz o diagnóstico

Nenhum exame isolado decide sozinho — o diagnóstico junta várias peças. Os exames de sangue (PCR e VHS) ajudam a levantar a suspeita, mas não são prova: podem vir normais mesmo havendo infecção. Uma revisão sistemática de Sigmund e colaboradores (2025) avaliou justamente o papel desses marcadores séricos e reforça que eles servem para rastreio, não para fechar o diagnóstico [3].

Por isso, muitas vezes o médico faz uma punção — retira um pouco do líquido da articulação com uma agulha — para analisar e enviar à cultura. Esse líquido conta muito, mas também não decide sozinho: a contagem de células ajuda a orientar, e a confirmação vem do conjunto — a sua história, o exame, os exames de sangue, o líquido e, principalmente, a cultura, que identifica a bactéria e mostra a qual antibiótico ela responde.

Dois pontos práticos importantes: as culturas ficam cerca de 14 dias no laboratório, porque alguns germes crescem devagar; e não se deve tomar antibiótico antes de colher as amostras — isso "esconde" a bactéria e é uma das principais causas de a cultura não crescer nada. Se você suspeita de infecção, procure a equipe antes de começar qualquer antibiótico por conta própria.

6. Como se trata: limpeza ou troca da prótese

A conduta depende de quanto tempo a infecção tem, de como está a prótese e do seu estado de saúde. Em linhas gerais, há dois caminhos:

Limpeza mantendo a prótese. Quando a infecção é recente e a prótese está firme, pode-se fazer uma cirurgia de limpeza mantendo o implante, trocando apenas as peças móveis, junto com antibiótico. Funciona melhor quanto mais cedo. Com honestidade: essa limpeza pode não resolver de primeira — uma revisão de Salman e colaboradores (2024) analisou justamente as taxas de sucesso quando é preciso repetir o procedimento [4]. Às vezes é necessária mais de uma cirurgia, e isso não significa que algo foi mal feito.

Trocar a prótese: uma cirurgia ou duas? Quando é preciso trocar, isso pode ser feito em uma cirurgia (troca em um tempo) ou em duas, com um espaçador de cimento com antibiótico entre elas. Um ensaio clínico randomizado de Fehring e colaboradores (2026), no Journal of Bone and Joint Surgery, comparou as duas estratégias e concluiu que, em casos bem selecionados e com protocolo rigoroso, a troca em um tempo não é inferior à troca em dois — o que pode poupar uma operação [5]. É importante ler esse resultado com precisão: trata-se de não-inferioridade em casos selecionados, não de uma superioridade que valha para todos. Quem decide o caminho mais seguro para você é o seu cirurgião.

Sobre o tempo de antibiótico, um ensaio clínico de Bernard e colaboradores (2021), no New England Journal of Medicine, comparou 6 e 12 semanas de tratamento na infecção de prótese [6] — outro exemplo de que a duração é uma decisão clínica, individual, e não um número fixo para todos.

7. Como é a recuperação — e o que significa "sucesso"

Vencer a bactéria é uma parte da história; a outra é como você fica depois. Mesmo quando a infecção é considerada controlada, a recuperação da força e do movimento costuma ser mais lenta do que a de uma cirurgia comum, e exige paciência e reabilitação.

Por isso o acompanhamento é longo. A infecção pode voltar, sobretudo nos primeiros anos após o tratamento, e é por isso que os estudos costumam exigir vários anos de seguimento antes de falar em sucesso com segurança. Manter os retornos programados não é formalidade — é parte do tratamento.

Uma conversa honesta: a infecção de prótese é uma condição séria e merece o cuidado de uma equipe completa. A boa notícia é que, com tratamento adequado e acompanhamento próximo, a maior parte dos pacientes controla a infecção e volta a caminhar. O mais importante é não interromper o acompanhamento.

8. Por que agir cedo importa tanto

A razão de tanta ênfase nos sinais é simples: uma infecção reconhecida e tratada cedo tem um caminho muito diferente de uma que evolui despercebida. É por isso que a orientação é sempre procurar na dúvida, sem esperar "para ver se passa". Você não está incomodando a equipe — está fazendo exatamente o que ela espera.

Entender também os outros sinais de problema na prótese completa o quadro do que observar ao longo dos anos. A avaliação e a conduta são exclusivas do seu médico, que examina e investiga o seu caso individual. Comece pelos guias completos da prótese de joelho e da prótese de quadril.

Referencias

  1. Nelson SB, Pinkney JA, Chen AF, Tande AJ. Periprosthetic Joint Infection: Current Clinical Challenges. Clin Infect Dis. 2023;77(7):e34-e45. link
  2. Sigurdardottir M, Sigurdsson MI, Vias RD, Olafsson Y. Preoperative optimization of modifiable risk factors is associated with decreased superficial surgical site infections after total joint arthroplasty: a prospective case-control study. Acta Orthop. 2024;95:392-400. link
  3. Sigmund IK, Dietz MJ, Sabater-Martos M, Palmer AJR, Cortés-Penfield N; “Serum Marker Workgroup” for the Unified PJI Definition Taskforce. Serum inflammatory markers for the screening and diagnosis of periprosthetic joint infection: a systematic review. J Bone Jt Infect. 2025;10:363-376. link
  4. Salman LA, et al. Success rate of single versus multiple debridement, antibiotics, and implant retention (DAIR) in hip and knee periprosthetic joint infection. Eur J Orthop Surg Traumatol. 2024;34(8):3859-3872. link
  5. Fehring TK, et al. One-Stage Versus Two-Stage Exchange Arthroplasty for Periprosthetic Joint Infection: A Prospective Randomized Trial. J Bone Joint Surg Am. 2026;108(14):1070-1082. link
  6. Bernard L, Arvieux C, Brunschweiler B, et al. Antibiotic Therapy for 6 or 12 Weeks for Prosthetic Joint Infection. N Engl J Med. 2021;384(21):1991-2001. link

Perguntas Frequentes

Por que a infecção de prótese não se resolve só com antibiótico?

Porque a bactéria se aloja na superfície da prótese e forma uma camada protetora chamada biofilme, que a defende dos antibióticos e das defesas do corpo. Por isso, além do antibiótico, costuma ser necessária uma cirurgia para limpar ou trocar a prótese [1].

Como se faz o diagnóstico de infecção na prótese?

Juntando peças, nunca por um exame só. PCR e VHS no sangue levantam a suspeita mas não são prova — podem vir normais mesmo havendo infecção. Costuma-se fazer uma punção do líquido da articulação para análise e cultura, que fica cerca de 14 dias no laboratório [3].

Posso tomar antibiótico antes de ir ao médico?

Não por conta própria. Tomar antibiótico antes de colher as amostras "esconde" a bactéria e é uma das principais causas de a cultura não crescer nada — o que dificulta muito o tratamento. Na suspeita, procure a equipe antes de iniciar qualquer antibiótico.

Dá para tratar a infecção sem trocar a prótese?

Em alguns casos, sim. Quando a infecção é recente e a prótese está firme, pode-se fazer uma limpeza cirúrgica mantendo o implante e trocando só as peças móveis, junto com antibiótico. Funciona melhor quanto mais cedo, e às vezes é preciso mais de uma cirurgia [4].

Trocar a prótese em uma cirurgia ou em duas?

Depende do caso. Um ensaio clínico randomizado de 2026 concluiu que, em casos bem selecionados e com protocolo rigoroso, a troca em um tempo não é inferior à troca em dois — podendo poupar uma operação. É não-inferioridade em casos selecionados, não uma regra para todos; quem decide é o seu cirurgião [5].

Depois de tratada, a infecção pode voltar?

Pode, sobretudo nos primeiros anos — e é por isso que o acompanhamento é longo e os estudos exigem vários anos de seguimento antes de falar em sucesso. Manter os retornos programados faz parte do tratamento. Com cuidado adequado, a maior parte dos pacientes controla a infecção e volta a caminhar.

Infecção na prótese é comum?

É incomum, mas é uma das complicações mais sérias, e por isso a prevenção é levada muito a sério, num trabalho interdisciplinar reconhecido como foco central do cuidado moderno [1]. Reconhecer sinais cedo faz grande diferença no desfecho.

Como a equipe previne a infecção?

Com medidas antes, durante e depois: preparo da pele, antibiótico no momento certo, técnicas rigorosas de esterilidade e cuidados no pós-operatório. O preparo do paciente também conta: otimizar a saúde antes de operar se associou a menos infecção do sítio cirúrgico [2].

O que posso fazer para reduzir o risco de infecção?

Antes: parar de fumar, controlar o diabetes, cuidar da nutrição e tratar focos de infecção (inclusive dentários). Depois: seguir à risca os cuidados com a ferida, mantê-la limpa e seca, e não aplicar nada por conta própria. Ao longo da vida: tratar prontamente outras infecções do corpo.

Quais são os sinais de infecção na prótese?

Febre sem explicação clara, vermelhidão/calor/inchaço crescentes na região operada, dor que aumenta em vez de melhorar (sobretudo depois de já estar melhorando), e secreção pela ferida ou ferida que não cicatriza. Todos merecem avaliação rápida — procure a equipe sem demora.

Devo esperar para ver se os sintomas passam?

Não. Na suspeita de infecção, a orientação é procurar sem esperar "para ver se passa". Uma infecção tratada cedo tem um caminho muito mais simples do que uma que evolui despercebida. Ligar na dúvida é exatamente o que a equipe espera de você.

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