Prótese de Quadril Cimentada ou Não Cimentada: Qual a Diferença?

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

Cimentada ou não cimentada? As duas formas de fixar a prótese de quadril funcionam bem — a diferença está em quando cada uma é a mais indicada. Um guia honesto sobre como o cirurgião decide, sem promessas.

Este artigo é informativo. As decisões sobre qualquer tratamento envolvem a avaliação da sua equipe médica — que considera seus exames, suas outras doenças, suas expectativas e o seu caso individual. Nenhum texto substitui essa conversa.

"A minha prótese vai ser cimentada ou não?" é uma dúvida técnica que gera muita ansiedade — como se uma opção fosse "melhor" que a outra. A verdade honesta é mais tranquila: as duas formas de fixar a prótese de quadril funcionam bem, e a escolha entre elas é uma decisão técnica do cirurgião, feita para o seu osso e o seu caso.

Este guia explica, sem jargão, o que cada uma significa e em que situações uma tende a ser preferida à outra. Para o panorama geral dos tipos de implante, veja o guia de tipos de implante de quadril — aqui o foco é especificamente a fixação.

Radiografia AP da bacia com prótese total moderna do quadril esquerdo (não cimentada, cabeça esférica) — quadril direito nativo
Prótese total de quadril moderna, não cimentada — a haste tem revestimento poroso para o osso crescer contra ela e fixá-la sem cimento. A cabeça esférica se articula com um componente acetabular fixo à bacia. À direita, o quadril nativo do mesmo paciente. Imagem: Wikimedia Commons (CC0)

1. O que significa "cimentada" e "não cimentada"

A diferença está em como a prótese se prende ao osso:

  • Cimentada: usa um cimento ósseo (um polímero chamado PMMA) que preenche os pequenos espaços entre a prótese e o osso e se entrelaça mecanicamente nas microestruturas ósseas, travando o componente no lugar. Não é uma "cola" no sentido comum — é um encaixe mecânico que fixa a prótese imediatamente.
  • Não cimentada (ou "press-fit"): a prótese tem uma superfície porosa e é encaixada sob pressão diretamente no osso. Com o tempo, o próprio osso cresce para dentro dessa superfície e fixa a prótese de forma biológica e duradoura.

Repare: uma fixa na hora (mecânica), a outra fixa ao longo das semanas (biológica). As duas, bem indicadas, seguram a prótese por décadas.

2. As duas funcionam — e a não cimentada é hoje a mais comum

Nas últimas décadas, a fixação não cimentada passou a ser a mais utilizada no mundo. Um estudo de registro nacional (2001–2024) mostrou que a fixação não cimentada já responde por cerca de 57% das próteses de quadril, com tendência de crescimento em todas as faixas etárias — inclusive acima dos 80 anos — enquanto os índices de revisão das duas técnicas permaneceram numa faixa estreita e semelhante [1].

Ou seja: a preferência atual pela não cimentada reflete bons resultados de longo prazo, mas isso não torna a cimentada "ultrapassada". Ela continua tendo indicações precisas — e, em algumas situações, é a escolha mais segura.

3. Onde a escolha realmente importa: a qualidade do osso

O ponto em que a decisão pesa de verdade é a fragilidade do osso. Em osso mais frágil, encaixar uma haste sob pressão (não cimentada) pode aumentar o risco de uma fratura ao redor da prótese.

Um estudo de registro nacional de 2026 mostrou isso com clareza: em mulheres com 70 anos ou mais, a fixação não cimentada esteve associada a um risco maior de fratura periprotética que exigiu revisão, comparada à cimentada (0,5% contra 0,2%) [2]. O mesmo estudo trouxe uma nuance importante: entre as hastes não cimentadas, as que têm um "colar" (um apoio na região do colo do fêmur) reduziram muito esse risco [2] — mostrando que o desenho da prótese também conta. É por isso que, em pacientes idosos com osso mais frágil, o cirurgião frequentemente prefere a fixação cimentada ou uma haste não cimentada com colar.

4. Como o cirurgião decide

Não existe uma resposta única — existe a melhor escolha para o seu caso. Na prática, a decisão pondera:

  • Idade e qualidade do osso: osso jovem e forte favorece a fixação biológica (não cimentada); osso mais frágil, comum em pessoas mais idosas, pode favorecer a cimentada pela segurança contra fratura [2].
  • Anatomia do fêmur e desenho do implante: o formato do canal ósseo e o tipo de haste (com ou sem colar) entram na conta [2].
  • Experiência e julgamento do cirurgião diante do conjunto — é uma decisão técnica, tomada muitas vezes durante o planejamento e confirmada na própria cirurgia.

O que você precisa saber é que ambos os caminhos são legítimos e seguros quando bem indicados — não há motivo para ansiedade sobre "ter recebido o tipo errado".

5. E a durabilidade, muda?

Boa notícia: bem indicada, a prótese de quadril moderna dura décadas independentemente de o tipo de fixação ter sido bem escolhido. A meta-análise mais recente de registros nacionais estima sobrevida em torno de 92% aos 30 anos para os implantes contemporâneos [3]. O detalhamento está em quanto tempo dura a prótese de quadril.

A decisão sobre qual fixação usar é exclusiva do seu cirurgião, que avalia o conjunto: seu quadro clínico, exames, qualidade óssea e anatomia. Comece pelo guia completo da prótese de quadril.

Durabilidade da prótese de quadril

Sobrevida de implantes contemporâneos

DadoValor
Durabilidade geralDura décadas independentemente do tipo de fixação
Sobrevida aos 30 anosEm torno de 92%

A decisão sobre fixação é exclusiva do cirurgião.

Prof. Dr. Daniel Fernandes · drfernandes.com.br

A tabela resume o dado de sobrevida e a ressalva, sem a explicação completa.

Referencias

  1. Moldovan F, Moldovan L. Fixation Methods in Primary Hip Arthroplasty: A Nationwide, Registry-Based Observational Study in Romania (2001-2024). Healthcare (Basel). 2025;13(19):2432. link
  2. Ladurner A, Kramer M, Giesinger K, et al. Collared, Uncemented Stems Markedly Reduce Periprosthetic Femoral Fracture Risk in Women ≥ 70 Years: A Swiss National Registry Study. J Arthroplasty. 2026 Aug 24 (online ahead of print). link
  3. Pentland V, Thompson Z, Dayimu A, et al. Survivorship of modern total hip replacement to 30 years: systematic review, meta-analysis, and extrapolation of global joint registry data. Lancet. 2026;407(10531):855-866. link

Perguntas Frequentes

Qual é melhor: prótese de quadril cimentada ou não cimentada?

Nenhuma é universalmente "melhor" — as duas funcionam bem quando bem indicadas. A não cimentada é hoje a mais comum e favorece osso jovem e forte; a cimentada tem vantagem de segurança contra fratura em osso mais frágil [1][2]. A escolha é técnica e individualizada, feita pelo seu cirurgião.

A prótese cimentada é ultrapassada?

Não. Embora a não cimentada seja hoje a mais usada, a cimentada mantém indicações precisas — especialmente em pacientes idosos com osso mais frágil, onde reduz o risco de fratura ao redor da prótese [2]. As duas técnicas têm índices de revisão semelhantes e duradouros [1].

O cimento é uma cola que pode "descolar"?

Não é uma cola no sentido comum. O cimento ósseo (PMMA) preenche e se entrelaça mecanicamente nas microestruturas do osso, travando a prótese no lugar de forma imediata e estável. É um encaixe mecânico, não uma colagem que simplesmente solta.

Idosos devem usar prótese cimentada?

Frequentemente, sim — em pessoas idosas com osso mais frágil, a fixação cimentada (ou uma haste não cimentada com colar) reduz o risco de fratura periprotética [2]. Mas a decisão é individual, avaliada pelo cirurgião conforme a qualidade do seu osso.

O tipo de fixação muda a durabilidade da prótese?

Bem indicada, a prótese de quadril moderna dura décadas independentemente do tipo de fixação — a estimativa é de cerca de 92% de sobrevida aos 30 anos para implantes contemporâneos [3]. O importante é a fixação certa para o seu osso.

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