Como escolher um cirurgião de prótese de quadril e joelho

Escolher o cirurgião de uma prótese de quadril ou de joelho é uma decisão importante. Esta página reúne o que os estudos mostram sobre especialização, experiência, hospital e expectativas — e perguntas úteis para a consulta, a começar por: eu preciso mesmo operar?

Por que a especialização do cirurgião importa?

A prótese de quadril e a prótese de joelho são cirurgias com técnica própria. Depois da residência em Ortopedia e Traumatologia, parte dos cirurgiões faz uma formação adicional dedicada a elas — chamada de fellowship ou especialização em artroplastia (o nome técnico da cirurgia de prótese) — e passa a se dedicar a esse tipo de tratamento.

Grandes bases de dados nacionais compararam cirurgiões com e sem essa formação. Em quadril, os pacientes operados por cirurgiões com formação específica e experiência tiveram menos luxação (quando a prótese sai do lugar), menos cirurgias de revisão (nova operação para trocar a prótese) e menos infecção da prótese aos dois anos; nesse estudo, o volume de cirurgias, sozinho, não reproduziu os resultados observados quando formação específica e experiência estavam combinadas [1]. Em joelho, a formação específica esteve associada a menos infecção, menos soltura da prótese e menos cirurgias de revisão em até dois anos [2], e a menos eventos adversos de modo geral [3].

É importante ler esses números com cuidado. São estudos observacionais, que mostram associação e não provam causa, e as diferenças absolutas são pequenas — por exemplo, a luxação em 90 dias foi de 0,8% contra 0,9% a 1,2% [1]. Em joelho, a durabilidade da prótese em cinco anos foi praticamente igual entre os operados por cirurgiões com e sem formação em artroplastia (96,71% e 96,82%) [3]. Os autores sugerem que parte do benefício pode vir também da forma de trabalho do serviço [3].

O que significa o registro de especialista?

O RQE — Registro de Qualificação de Especialista — é o registro, no Conselho Regional de Medicina, da especialidade do médico. Ele aparece ao lado do número do CRM (o registro do médico no Conselho Regional de Medicina). Ortopedia e traumatologia é a área que cuida do aparelho locomotor: ossos, articulações, músculos e ligamentos. O título de especialista em Ortopedia e Traumatologia é concedido pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e se refere à ortopedia como um todo.

No site do Conselho Federal de Medicina (portal.cfm.org.br), na busca de médicos, a especialidade registrada pode ser consultada de forma pública e gratuita. A formação específica em quadril e joelho e a dedicação do cirurgião a esse tipo de cirurgia são assuntos naturais para conversar na consulta.

O número de cirurgias que o cirurgião faz importa?

Importa, mas não é o único fator. Em quadril, uma revisão que reuniu 28 estudos associou maior volume do cirurgião a internação mais curta e menos luxação [4], e no registro nacional suíço a taxa de revisão em dois anos foi de 2,18%, 2,01% e 1,70% quando se consideram cirurgiões com no mínimo 10, 20 e 50 cirurgias de quadril por ano, respectivamente [5].

Outros estudos relativizam esse efeito. Uma revisão de 2026 encontrou uma tendência de melhores resultados com maior volume, mas as diferenças em geral foram pequenas o bastante para poderem ser obra do acaso, e os autores lembram que o hospital e as características do paciente também influenciam [6]. Em outro registro, a vantagem dos cirurgiões de maior volume na revisão da prótese apareceu em 1 e 2 anos e se igualou à dos cirurgiões de volume intermediário em 9 anos [7].

Em quadril, o estudo que analisou formação e volume juntos concluiu que os melhores resultados vieram da combinação das duas coisas: formação específica e experiência [1]. O resultado depende também do seu quadro, das suas outras doenças, da reabilitação e do seguimento das orientações.

E quando a cirurgia é a troca de uma prótese?

A cirurgia de revisão — a troca de uma prótese que já foi colocada — costuma ser mais complexa. No registro nacional britânico, na primeira revisão de prótese de quadril por soltura, o risco de precisar de uma nova revisão foi maior nas primeiras revisões feitas por cada cirurgião e permaneceu mais alto até os primeiros 24 casos [8]. Nesses casos, a experiência específica do cirurgião com revisão é um assunto importante para a consulta.

O hospital e a equipe fazem diferença?

O volume do hospital também aparece associado aos resultados. Em joelho, uma revisão de 2022 concluiu que hospitais com maior volume provavelmente têm menos readmissão (nova internação) em até 3 meses [9]. Em quadril, uma revisão de 2019 encontrou, em hospitais de baixo volume, mais infecção no local da cirurgia e mais complicações; a maioria dos estudos era retrospectiva, ou seja, olhava para dados já registrados [10].

A organização da equipe também conta. Uma revisão de 2021 concluiu que os protocolos de recuperação acelerada provavelmente reduzem o tempo de internação, com pouco ou nenhum impacto nas complicações do período em volta da cirurgia ou na readmissão; a qualidade das evidências era limitada [11].

Eu preciso mesmo operar?

Essa talvez seja a pergunta mais importante da consulta. Em um ensaio clínico randomizado (estudo em que os pacientes são sorteados para cada tratamento) com 100 pacientes com artrose de joelho que tinham indicação de prótese, a cirurgia seguida de reabilitação trouxe mais alívio da dor e mais melhora da função em 12 meses do que o tratamento sem cirurgia, mas com mais complicações graves (24 eventos no grupo operado contra 6 no grupo sem cirurgia) [12]. No mesmo estudo, a maioria dos pacientes do grupo sem cirurgia não fez a prótese nesses 12 meses (26% fizeram) [12].

Ou seja, a indicação depende do quanto a artrose limita a sua vida, do que já foi tentado e do que você espera. Vale conversar abertamente sobre as alternativas, sobre o momento certo e sobre o que acontece se a cirurgia for adiada.

O que esperar da cirurgia?

Conversar sobre o que a cirurgia pode e o que não pode resolver faz parte da preparação. Em joelho, uma revisão de 2023 que reuniu 21 estudos encontrou taxa média de insatisfação de 10% — aproximadamente 1 em cada 10 pacientes — e de 7,3% quando as complicações são excluídas; os motivos mais citados foram complicações, expectativas não atendidas, dor persistente e rigidez [13]. Um estudo mais antigo, de 2010, descreveu taxa em torno de 19% e apontou a expectativa não atendida como o fator de maior peso [14].

Na prática, vale levar suas dúvidas por escrito, contar o que você espera da cirurgia e ouvir do seu médico quais resultados são realistas no seu caso, inclusive o que pode não melhorar, quais são os riscos e como será a recuperação.

Como decidir junto com o médico?

Na decisão compartilhada, paciente e médico decidem juntos, considerando a evidência e o que é importante para o paciente. Em prótese de quadril e de joelho, materiais de apoio à decisão melhoraram a qualidade da decisão e reduziram a dúvida dos pacientes, sem mudar a satisfação nem a proporção dos que escolheram operar; a certeza dessas evidências é de baixa a muito baixa [15]. Em joelho, um material de apoio específico aumentou o conhecimento dos pacientes sobre as opções de tratamento [16].

Ouvir a avaliação de outro médico também é uma prática comum e aceita na medicina — não é sinal de desconfiança nem de conflito. Se você quiser, pode pedir ao seu médico que encaminhe seus exames e laudos para a segunda avaliação.

A decisão sobre o tratamento é tomada em conjunto, por você e pelo seu médico, considerando o seu quadro clínico, exames, comorbidades e objetivos.

Quais perguntas costumam ajudar na consulta?

  • Eu preciso mesmo operar agora? Quais são as alternativas e o que acontece se eu esperar?
  • O que se espera que melhore com a cirurgia e o que pode não melhorar?
  • Quais são os riscos e as complicações possíveis no meu caso?
  • Como será a recuperação: internação, fisioterapia e volta às minhas atividades?
  • Pode me contar um pouco da sua formação e da sua dedicação à cirurgia de prótese de quadril e joelho?
  • Em qual hospital a cirurgia será feita e como funciona a equipe — anestesia e fisioterapia?
  • Se eu quiser ouvir uma segunda opinião, é possível encaminhar os meus exames?

Para saber mais sobre a cirurgia, veja prótese de quadril e prótese de joelho.

Perguntas frequentes

Qual é o critério mais importante para escolher o cirurgião de prótese?

Não existe um critério único. Os estudos associam a formação específica em prótese de quadril e joelho a menos complicações nos primeiros anos [1][2][3] — em quadril, com diferenças absolutas pequenas [1], e o melhor resultado em quadril veio da combinação de formação específica e experiência [1]. Também contam o hospital, a equipe, a reabilitação e uma conversa franca sobre indicação e expectativas.

Preciso escolher o médico que faz o maior número de cirurgias?

O volume é um fator entre vários. Ele aparece associado a alguns resultados melhores [4][5], mas uma revisão recente encontrou diferenças em geral pequenas o bastante para poderem ser obra do acaso [6], e, em quadril, um estudo encontrou os melhores resultados quando formação específica e experiência estavam combinadas [1].

Toda artrose de joelho precisa de prótese?

Não necessariamente. A indicação depende do quanto a artrose limita a sua vida e do que já foi tentado. Em um ensaio clínico de joelho, a maioria dos pacientes tratados sem cirurgia não fez a prótese em 12 meses; a cirurgia trouxe mais alívio da dor e mais melhora da função, mas com mais complicações graves [12]. Essa é uma decisão para tomar em conjunto com o seu médico.

É normal querer uma segunda opinião?

Sim, é uma prática comum e aceita na medicina. Você pode conversar abertamente com o seu médico sobre isso e pedir que ele encaminhe seus exames e laudos.

Referências

  1. Katanbaf R, Misch M, Aflatooni JO, et al. Outcomes of Total Hip Arthroplasty Based on Surgeon Fellowship and Case Volume. J Arthroplasty. 2026. PMID 42264334. PubMed
  2. Katanbaf R, Hoveidaei AH, Swartz GN, et al. Fellowship Training in Adult Reconstruction Is Associated With Decreased Complications up to Two Years Following Total Knee Arthroplasty. J Arthroplasty. 2026. PMID 41067455. PubMed
  3. Ajjawi I, Zhu J, Grauer JN. Correlation of Fellowship Training With Clinical Outcomes following Total Knee Arthroplasty: Complications, Readmissions, and Implant Survival. J Am Acad Orthop Surg Glob Res Rev. 2025. PMID 40591573. PubMed
  4. Malik AT, Jain N, Scharschmidt TJ, et al. Does Surgeon Volume Affect Outcomes Following Primary Total Hip Arthroplasty? A Systematic Review. J Arthroplasty. 2018. PMID 29921502. PubMed
  5. Ladurner A, Giesinger K, Jost B, et al. The relationship between surgeon case load and revision rates in total hip arthroplasty: Evidence from the Swiss National Joint Registry. Swiss Med Wkly. 2025. PMID 40135825. PubMed
  6. Meissner N, Ortwig K, Ramos-Pascual S, et al. The effect of surgeon volume on outcomes after total hip arthroplasty: a systematic review and meta-analysis. Arch Orthop Trauma Surg. 2026. PMID 42622668. PubMed
  7. von Treuheim TDP, Anil U, Lin CC, et al. High volume total hip arthroplasty surgeons have improved perioperative outcomes and short-term cumulative revision rates. Hip Int. 2025. PMID 40576007. PubMed
  8. Holleyman RJ, Jameson SS, Meek RMD, et al. Association between surgeon and hospital volume and outcome of first-time revision hip arthroplasty for aseptic loosening. Bone Joint J. 2024. PMID 39348904. PubMed
  9. Kugler CM, Goossen K, Rombey T, et al. Hospital volume-outcome relationship in total knee arthroplasty: a systematic review and dose-response meta-analysis. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2022. PMID 34494124. PubMed
  10. Mufarrih SH, Ghani MOA, Martins RS, et al. Effect of hospital volume on outcomes of total hip arthroplasty: a systematic review and meta-analysis. J Orthop Surg Res. 2019. PMID 31881918. PubMed
  11. Morrell AT, Layon DR, Scott MJ, et al. Enhanced Recovery After Primary Total Hip and Knee Arthroplasty: A Systematic Review. J Bone Joint Surg Am. 2021. PMID 34166275. PubMed
  12. Skou ST, Roos EM, Laursen MB, et al. A Randomized, Controlled Trial of Total Knee Replacement. N Engl J Med. 2015. PMID 26488691. PubMed
  13. DeFrance MJ, Scuderi GR. Are 20% of Patients Actually Dissatisfied Following Total Knee Arthroplasty? A Systematic Review of the Literature. J Arthroplasty. 2023. PMID 36252743. PubMed
  14. Bourne RB, Chesworth BM, Davis AM, et al. Patient satisfaction after total knee arthroplasty: who is satisfied and who is not?. Clin Orthop Relat Res. 2010. PMID 19844772. PubMed
  15. Pacheco-Brousseau L, Charette M, Poitras S, et al. Effectiveness of patient decision aids for total hip and knee arthroplasty decision-making: a systematic review. Osteoarthritis Cartilage. 2021. PMID 34302958. PubMed
  16. Riddle DL, Sando T, Tarver T, et al. Shared Decision-Making Applied to Knee Arthroplasty: A Systematic Review of Randomized Trials. Arthritis Care Res (Hoboken). 2021. PMID 32339448. PubMed

Foco exclusivo: artrose avançada de quadril e joelho

O Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes dedica todo o seu tempo de trabalho a uma área só: o tratamento da artrose — o desgaste avançado — do quadril e do joelho, do tratamento sem cirurgia até a prótese total (artroplastia) e as cirurgias de revisão.

Ele não atende ombro, coluna, pé, mão ou cotovelo. Quem procura o consultório com essas queixas é orientado a buscar o profissional da área, sem uma consulta intermediária que não resolveria o problema.

O que essa dedicação significa na prática — formação, ensino, pesquisa e o que a ciência mostra sobre concentrar a prática: Totalmente especializado em quadril e joelho.